sexta-feira, 5 de abril de 2019

Capítulo I - A legenda de São Tomé




Autor: Carlos Sodre Lanna





Capítulo I
A legenda de São Tomé
Relatos históricos e numerosos indícios materiais
pouco conhecidos do grande público atestam a passagem do Apóstolo São Tomé entre os índios brasileiros

Apostolo São Tomé colocando o dedo nas chagas de Nosso Senhor Jesus Cristo

“Ide de e ensinai a todos os povos”

Ide de e ensinai a todos os povos, batizando-os em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo” (Mt. 28,19), eis o preceito de Nosso Senhor Jesus Cristo aos Apóstolos, a quem deu a missão de percorrer o mundo pregando o Evangelho a todos os povos.

São Tomé em terras longínquas

Admite-se, como hipótese muito provável, que São Tomé teria pregado aos índios do Ocidente, logo no início da era cristã. O certo é que ele pregou sempre os Evangelhos em terras longínquas, desconhecidas e inóspitas, tendo atingido a Etiópia, a antiga Pérsia, indo depois para a Índia, o Tibete e chegando à China. Em todos os lugares onde pregou a Fé cristã, realizou milagres extraordinários, deixando sempre o registro de sua passagem, que perdura até hoje.

A mandioca e a banana

Uma tradição conta que o Apóstolo – a quem os índios chamavam de Sumé – lhes forneceu a planta da mandioca e da banana e lhes ensinou a cultivar a terra. Sobre este particular, testemunhamos existir na Zona da Mata mineira a banana São Tomé. Os cultivadores costumam plantá-la no dia 21 de dezembro – quando se comemora a festa do Santo – para colher seu primeiro fruto exatamente um ano depois.
São Tomé pregou o bem àqueles indígenas, ensinando-lhes a adorar e servir a Deus e não ao demônio, a não terem mais de uma mulher e a não comerem carne humana.

“Não tinham pão”

Poucos dias após sua chegada ao Brasil, em março de 1549, o Padre Nóbrega escrevia:
“Também me contou pessoa fidedigna que as raízes de que cá se faz pão, que São Tomé as deu, porque cá não tinham pão”. E, em data posterior, acrescenta: “Dizem os índios que São Tomé passou por aqui e isto lhes foi dito por seus antepassados e que suas pisadas estão sinaladas junto de um rio, as quais eu fui ver, por mais certeza da verdade, e vi com os próprios olhos quatro pisadas sinaladas com seus dedos.
“Dizem que quando deixou estas pisadas, ia fugindo dos índios que o queriam flechar, e chegando ali se abrira o rio e passara por meio dele à outra parte sem se molhar. Contam que, quando queriam flechar os índios, as flechas se tornavam para eles e os matos lhe faziam caminho para onde passasse”.

O selo do Apóstolo no Brasil

Constata-se no relato acima a intenção missionária de São Tomé, difundindo por estas plagas brasílicas a palavra de Deus e deixando marcas como selo de sua presença. Desde o Rio Grande do Sul, passando por São Paulo, Rio de Janeiro, Bahia, Paraíba, Ceará e Maranhão, encontramos pegadas atribuídas pela tradição indígena ao Apóstolo.
A Nova Gazeta da Terra do Brasil informava, em 1514, sobre tradições de indígenas brasileiros referentes às pegadas de São Tomé, bem como às recordações que os silvícolas conservavam dele. Ao mostrarem tais pegadas aos portugueses, os índios indicavam também as cruzes existentes terra dentro. E quando falavam do Apóstolo, chamavam-no de “deus pequeno”, pois havia outro Deus maior.
 Outra informação histórica da existência de pegadas de São Tomé no Brasil foi-nos transmitida pelo padre Manoel da Nóbrega – dos primeiros missionários jesuítas vindos de Portugal após o Descobrimento – nas suas Cartas do Brasil.
Além das pegadas e das cruzes indicadas pelos índios, há várias outras marcas e fatos pitorescos ocorridos em nosso território e atribuídos a este discípulo de Nosso Senhor Jesus Cristo. Perto da cidade de Cabo Frio (RJ), por exemplo, existe um grande penedo que parece ter levado várias bordoadas. Com efeito, a pedra está toda marcada, como se o bordão tivesse golpeado com força a cera branda. E mais uma vez a tradição conta que as bordoadas foram feitas pelo bordão de São Tomé, numa ocasião em que os índios resistiram à doutrina pregada por ele.
Em São Tomé do Peripé (BA) existe uma fonte perene de água doce que brota de um penedo junto a certas pegadas. A tradição reza que por ali desceu São Tomé. A esta fonte o povo deu o nome de São Tomé Milagroso, pois a água nasce de pedra viva.

Cruzes nas três Américas

Podemos encontrar marcas atribuídas a São Tomé em diversos países americanos, como em Cuba e no Haiti. A elas se referiram os antigos maias na América Central. O mesmo aconteceu no México, nos Estados Unidos e no Canadá. No Peru, os incas possuíam uma cruz de mármore muito famosa. Segundo tradição de seus antepassados, ela lhes foi presenteada por São Tomé.
Em Carabuco, porto costeiro do lado norte do lago Titicaca, na Bolívia, havia uma cruz que os indígenas da região asseguravam ter sido deixada por São Tomé. Com efeito, venera-se ainda hoje, na cúpula do altar-mor da catedral de Sucre, uma cruz confeccionada com a madeira negra da aludida cruz de São Tomé.
Chegando ao México, Fernão Cortez encontrou um muro de pedra quadrada, e no meio dele uma cruz de dez palmos de altura – venerada pelos astecas – que teria sido lá plantada pelo Apóstolo. Também no Canadá os índios da parte oriental do país conheciam a cruz cristã, quando chegaram os primeiros desbravadores.
Num livro escrito em 1639, o padre Antonio Ruiz de Montoya, missionário no Paraguai, conta um episódio interessante. Ao chegar a uma aldeia indígena ostentando uma cruz, ele foi acolhido com demonstração de amor, danças e júbilo. As mulheres o receberam com as crianças ao colo; os habitantes lhe ofereciam comida, coisa que nunca antes havia ocorrido.

O Pai Zumé

Os índios contaram-lhe então uma tradição muito remota entre eles. Quando São Tomé, que chamavam de Pai Zumé, fez sua passagem por aquelas terras, dissera-lhes estas palavras: “A doutrina que eu agora vos prego, perdê-la-eis com o tempo. Mas quando, depois de muito tempo, vierem uns sacerdotes sucessores meus que trouxerem cruzes como eu, os vossos descendentes ouvirão esta mesma doutrina que vos ensino”. Com efeito, aquela lembrança os teria levado a dar tão boa acolhida aos missionários no Paraguai. Ali foi fundada uma povoação, início de muitas outras.
De volta dessa longa peregrinação pelo mundo, São Tomé, segundo a tradição, foi martirizado em Meleapor, na Índia, trespassado por uma lança. Dois séculos mais tarde, o imperador romano Alexandre Severo mandou buscar o corpo do Apóstolo, ordenando seu sepultamento em Edessa, hoje Orfia, na Turquia asiática.
Assim, a legenda de São Tomé desabrochara para os índios com a chegada dos novos missionários trazidos pelos descobrimentos dos séculos XV-XVI, os quais acabariam por se constituir nos verdadeiros herdeiros do ancestral mítico enviado por Deus ao nosso continente como primeiro propagador da Fé.
Hoje, uma campanha bem orquestrada procura denegrir a ação desses valorosos missionários, ao mesmo tempo em que prestigia os neo-missionários sem cruz... Que São Tomé, por meio de Maria, Medianeira de todas as graças, esmague uma vez mais as argúcias satânicas nestas plagas que ele tanto quis converter para Nosso Senhor Jesus Cristo.



São Tomé na Sagrada Escritura e na Tradição

           Encontramos várias referências de São Tomé nos Evangelhos. São João narra episódios que revelam o caráter ao mesmo tempo corajoso, afeito ao raciocínio e tendente ao ceticismo de São Tomé. Tornou-se famosa sua atitude incrédula diante da afirmação dos outros Apóstolos, que haviam visto Jesus após a Ressurreição: “Se não vir em suas mãos (do Redentor) a abertura dos cravos e não meter a minha mão no seu lado, não creio”, asseverou, na ocasião (Jo, 20, 25).
          Acrescenta o Evangelista que, oito dias depois, estavam os discípulos reunidos, e São Tomé com eles. Jesus apareceu-lhes e disse então a São Tomé: “Mete aqui o teu dedo e vê as minhas mãos, aproxima também a tua mão, e mete-a no meu lado; e não sejas incrédulo, mas fiel!”. Respondeu Tomé, e disse-lhe: “Meu Senhor e meu Deus”. Disse-lhe Jesus: “Tu creste, Tomé, porque me viste; bem-aventurados os que não viram e creram” (Jo. 20, 27-29).

*     *     *
          Tradição muito arraigada atesta ter São Tomé exercido seu apostolado em regiões do Oriente situadas entre a Síria, a Pérsia e a Índia. Outra tradição referente ao Apóstolo, pouco conhecida e até certo ponto silenciada, mas com sólidas raízes nos relatos dos povos indígenas das Américas: sua ação evangelizadora no continente americano.
           Pesquisas históricas realizadas na Índia nos últimos 70 anos têm confirmado a crença multissecular a respeito do Apóstolo. Sua figura faz parte da história indiana, a qual admite ter sido o Cristianismo implantado por São Tomé em Malabar, ao sul do país, e na costa de Coromandel. Muitos se converteram mediante sua pregação, tendo ele construído muitas igrejas.
          Segundo essa tradição, São Tomé chegou à Índia em meados do século I, tendo evangelizado a região de Cranganur. No ano 72, quando o Apóstolo rezava diante da cruz de granito esculpida por ele próprio, no monte de São Tomé, morreu trespassado por uma lança. Seu corpo foi sepultado em Meleapur-Santhome, na igreja por ele construída. De fato, conservam-se nessa cidade diversos monumentos que atestam a atuação apostólica de São Tomé, como a caverna na qual se escondia de seus perseguidores, o oratório esculpido por ele, diante do qual foi martirizado, e seu túmulo.
          Uma bela catedral neogótica foi construída no ano de 1893 em honra ao glorioso Apóstolo, em Meleapur, no mesmo local onde havia uma igreja a ele dedicada desde o início do século XVI. As relíquias do Santo foram levadas a Edessa, na Palestina, e mais tarde para Ortona, na Itália. Na comemoração do XIX Centenário de São Tomé, na cidade de Madras, em 1972, o Legado papal, Cardeal Convey, declarou São Tomé Patrono e Apóstolo da Índia.



Continua no próximo post: Capítulo II - Primeira página da História do Brasil

Introdução

Autor: Carlos Sodre Lanna


Carlos Eduardo Sodré Lanna



Brasil
Primeiras páginas de uma

Legenda



Meu Senhor e meu Deus! – exclamou São Tomé, ao tocar com as mãos nas chagas de Nosso Senhor Jesus Cristo, após a Ressurreição. Através desse gesto quis Deus ajudar todos os incrédulos que, a exemplo do Apóstolo, existiriam até o fim dos tempos.

Só vendo para crer

Surgiu daí a expressão: “Sou como São Tomé, só vendo para crer”. Sua resposta, contudo, foi um brado de fé, adoração e submissão. Expressão tão bela que a Igreja Católica a recomenda como ato de adoração dos fiéis durante a missa, no momento da elevação da hóstia na consagração.
De incrédulo, São Tomé se tornou ardoroso apóstolo de povos em terras ignotas. Passou pela América evangelizando e fazendo milagres. Expulso daqui, foi parar na Índia, onde pregou e sofreu o martírio.
A legenda da evangelização do Brasil e da América começa nas brumas da História, com São Tomé, e só vai retornar 1.500 anos depois, com a chegada dos portugueses e espanhóis. As lembranças e reminiscências de São Tomé – chamado pelos índios de Sumé – prepararam e facilitaram a pregação dos missionários e a conversão dos nativos.

Terras muito remotas

Entretanto, os Descobrimentos são precedidos de outro acontecimento pouco conhecido e muito misterioso: a aparição de Nosso Senhor Jesus Cristo a D. Afonso Henriques nos campos de Ourique em 1139, quando instou o então Conde Portucalense a aceitar ser aclamado Rei de Portugal com a missão de levar o Evangelho a “terras muito remotas”.
Grandes missionários, como o Beato Anchieta, realizaram depois, nesta extensão de Portugal chamada Brasil, milagres da estatura dos primeiros apóstolos. A própria Rainha do Céu e da Terra, séculos antes de enternecida aparecer a três pastorzinhos em Fátima, despontou aqui “terrível como um exército em ordem de batalha” (Cântico dos cânticos, 6,9), pondo para correr os invasores holandeses e franceses ansiosos de nos impor sua falsa religião; colocando os batavos em polvorosa ao transformar areia em pólvora no Monte das Tabocas... São ainda os mártires da Legião Tebana que aparecem no Espírito Santo para expulsar os holandeses.
Tais temas constituem a matéria do presente livro que gostaria fosse o primeiro de uma série: acontecimentos e fatos desconhecidos e mesmo silenciados dos compêndios de História nos fazem conhecer os misteriosos desígnios da Providência Divina para com o continente americano, e, de modo especial, o Brasil.

Plinio Corrêa de Oliveira

Com suas profundas aulas, conferências e obras, o ilustre pensador e homem de ação, Professor Plinio Corrêa de Oliveira (1908-1995), nos descortinou o magnífico panorama da Teologia e Filosofia da História, ensinando-nos a conhecer e amar a Deus nos acontecimentos humanos. Igualmente nos estimulou a pesquisar e escrever artigos para a revista de cultura Catolicismo, orientando-nos e, muitas vezes, sugerindo textos e pensamentos aproveitados ao longo destas páginas.
De 1990 até o ano de seu falecimento, ele organizou dentro da entidade que fundou e presidiu – a Sociedade Brasileira de Defesa da Tradição, Família e Propriedade (TFP) – uma comissão de estudos para a elaboração de vários livros. Dentre estes um, ou mesmo uma série, mostrando a face pouco conhecida da História do Brasil.
Seu objetivo – que continua sendo o nosso – era deixar patente o contraste entre o Brasil dos planos da Providência e o Brasil decadente e ferido pela grave crise moral e religiosa de nossos dias, do qual ressurgisse o Brasil católico, cheio de Fé e grandeza, sobre o qual reina Nossa Senhora Aparecida.

Resgatar a História

Nossa pretensão é, pois, resgatar a verdadeira História e, fazendo-o, desmentir a enorme contrapropaganda surgida por ocasião dos 500 anos do descobrimento da América e da grandiosa obra civilizadora do cristianismo.
Trataremos logo de início da legendária presença de São Tomé no Brasil, da aparição de Nosso Senhor a D. Afonso Henriques em Ourique, da obra missionária portuguesa com os milagres e prodígios na conquista do nosso território. Na mesma senda, nos ocuparemos da aparição milagrosa da Virgem da Conceição Aparecida, preparando o Brasil imperial.
Falaremos da decadência das missões e da mudança de rumo encetada pela nova corrente missionária que abandonou a pregação do Evangelho para promover a exaltação de um novo comunismo tribal. E procuraremos explicar a formação das elites no Brasil Colônia, no Brasil Império e mesmo na República.

D. Luiz de Orleans e Bragança

Concluiremos com uma entrevista de D. Luiz de Orleans e Bragança, Chefe da Casa Imperial do Brasil, sobre a missão providencial deste, acrescida de um texto de Plinio Corrêa de Oliveira no mesmo sentido.
Possa este despretensioso trabalho concorrer para aumentar o conhecimento e o amor dos brasileiros em relação aos grandiosos planos que a Divina Providência condescendeu em ter para com a nossa Pátria.
Resta-nos suplicar a intercessão de Nossa Senhora Aparecida, Rainha e Padroeira do Brasil, para que restaure e faça florescer o quanto antes entre nós uma civilização genuinamente católica.