Autor: Carlos Sodre Lanna
Capítulo
I
A legenda de São Tomé
Relatos históricos e numerosos indícios materiais
pouco conhecidos do grande público atestam a passagem
do Apóstolo São Tomé entre os índios brasileiros
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| Apostolo São Tomé colocando o dedo nas chagas de Nosso Senhor Jesus Cristo |
“Ide
de e ensinai a todos os povos”
“Ide de e
ensinai a todos os povos, batizando-os em nome do Pai, e do Filho, e do
Espírito Santo” (Mt. 28,19), eis o preceito de Nosso Senhor Jesus Cristo
aos Apóstolos, a quem deu a missão de percorrer o mundo pregando o Evangelho a
todos os povos.
São
Tomé em terras longínquas
Admite-se, como hipótese muito provável, que São Tomé
teria pregado aos índios do Ocidente, logo no início da era cristã. O certo é
que ele pregou sempre os Evangelhos em terras longínquas, desconhecidas e
inóspitas, tendo atingido a Etiópia, a antiga Pérsia, indo depois para a Índia,
o Tibete e chegando à China. Em todos os lugares onde pregou a Fé cristã,
realizou milagres extraordinários, deixando sempre o registro de sua passagem,
que perdura até hoje.
A
mandioca e a banana
Uma tradição conta que o Apóstolo – a quem os índios
chamavam de Sumé – lhes forneceu a planta da mandioca e da banana e lhes ensinou
a cultivar a terra. Sobre este particular, testemunhamos existir na Zona da
Mata mineira a banana São Tomé. Os cultivadores costumam plantá-la no dia 21 de
dezembro – quando se comemora a festa do Santo – para colher seu primeiro fruto
exatamente um ano depois.
São Tomé pregou o bem àqueles indígenas,
ensinando-lhes a adorar e servir a Deus e não ao demônio, a não terem mais de
uma mulher e a não comerem carne humana.
“Não
tinham pão”
Poucos dias após sua chegada ao Brasil, em março de
1549, o Padre Nóbrega escrevia:
“Também me contou pessoa fidedigna que as raízes de
que cá se faz pão, que São Tomé as deu, porque cá não tinham pão”. E, em data
posterior, acrescenta: “Dizem os índios que São Tomé passou por aqui e isto
lhes foi dito por seus antepassados e que suas pisadas estão sinaladas junto de
um rio, as quais eu fui ver, por mais certeza da verdade, e vi com os próprios
olhos quatro pisadas sinaladas com seus dedos.
“Dizem que quando deixou estas pisadas, ia fugindo dos
índios que o queriam flechar, e chegando ali se abrira o rio e passara por meio
dele à outra parte sem se molhar. Contam que, quando queriam flechar os índios,
as flechas se tornavam para eles e os matos lhe faziam caminho para onde
passasse”.
O
selo do Apóstolo no Brasil
Constata-se no relato acima a intenção missionária de
São Tomé, difundindo por estas plagas brasílicas a palavra de Deus e deixando
marcas como selo de sua presença. Desde o Rio Grande do Sul, passando por São
Paulo, Rio de Janeiro, Bahia, Paraíba, Ceará e Maranhão, encontramos pegadas
atribuídas pela tradição indígena ao Apóstolo.
A Nova Gazeta
da Terra do Brasil informava, em
1514, sobre tradições de indígenas brasileiros referentes às pegadas de São
Tomé, bem como às recordações que os silvícolas conservavam dele. Ao mostrarem
tais pegadas aos portugueses, os índios indicavam também as cruzes existentes
terra dentro. E quando falavam do Apóstolo, chamavam-no de “deus pequeno”, pois
havia outro Deus maior.
Outra
informação histórica da existência de pegadas de São Tomé no Brasil foi-nos
transmitida pelo padre Manoel da Nóbrega – dos primeiros missionários jesuítas
vindos de Portugal após o Descobrimento – nas suas Cartas do Brasil.
Além das pegadas e das cruzes indicadas pelos índios,
há várias outras marcas e fatos pitorescos ocorridos em nosso território e
atribuídos a este discípulo de Nosso Senhor Jesus Cristo. Perto da cidade de
Cabo Frio (RJ), por exemplo, existe um grande penedo que parece ter levado
várias bordoadas. Com efeito, a pedra está toda marcada, como se o bordão
tivesse golpeado com força a cera branda. E mais uma vez a tradição conta que
as bordoadas foram feitas pelo bordão de São Tomé, numa ocasião em que os
índios resistiram à doutrina pregada por ele.
Cruzes
nas três Américas
Podemos encontrar marcas atribuídas a São Tomé em
diversos países americanos, como em Cuba e no Haiti. A elas se referiram os
antigos maias na América Central. O mesmo aconteceu no México, nos Estados
Unidos e no Canadá. No Peru, os incas possuíam uma cruz de mármore muito
famosa. Segundo tradição de seus antepassados, ela lhes foi presenteada por São
Tomé.
Em Carabuco, porto costeiro do lado norte do lago
Titicaca, na Bolívia, havia uma cruz que os indígenas da região asseguravam ter
sido deixada por São Tomé. Com efeito, venera-se ainda hoje, na cúpula do
altar-mor da catedral de Sucre, uma cruz confeccionada com a madeira negra da
aludida cruz de São Tomé.
Chegando ao México, Fernão Cortez encontrou um muro de
pedra quadrada, e no meio dele uma cruz de dez palmos de altura – venerada
pelos astecas – que teria sido lá plantada pelo Apóstolo. Também no Canadá os
índios da parte oriental do país conheciam a cruz cristã, quando chegaram os
primeiros desbravadores.
Num livro escrito em 1639, o padre Antonio Ruiz de
Montoya, missionário no Paraguai, conta um episódio interessante. Ao chegar a
uma aldeia indígena ostentando uma cruz, ele foi acolhido com demonstração de
amor, danças e júbilo. As mulheres o receberam com as crianças ao colo; os
habitantes lhe ofereciam comida, coisa que nunca antes havia ocorrido.
O
Pai Zumé
Os índios contaram-lhe então uma tradição muito remota
entre eles. Quando São Tomé, que chamavam de Pai Zumé, fez sua passagem por
aquelas terras, dissera-lhes estas palavras: “A doutrina que eu agora vos prego,
perdê-la-eis com o tempo. Mas quando, depois de muito tempo, vierem uns
sacerdotes sucessores meus que trouxerem cruzes como eu, os vossos descendentes
ouvirão esta mesma doutrina que vos ensino”. Com efeito, aquela lembrança os
teria levado a dar tão boa acolhida aos missionários no Paraguai. Ali foi
fundada uma povoação, início de muitas outras.
De volta dessa longa peregrinação pelo mundo, São Tomé,
segundo a tradição, foi martirizado em Meleapor, na Índia, trespassado por uma
lança. Dois séculos mais tarde, o imperador romano Alexandre Severo mandou
buscar o corpo do Apóstolo, ordenando seu sepultamento em Edessa, hoje Orfia,
na Turquia asiática.
Assim, a legenda de São Tomé desabrochara para os
índios com a chegada dos novos missionários trazidos pelos descobrimentos dos
séculos XV-XVI, os quais acabariam por se constituir nos verdadeiros herdeiros
do ancestral mítico enviado por Deus ao nosso continente como primeiro
propagador da Fé.
Hoje, uma campanha bem orquestrada procura denegrir a
ação desses valorosos missionários, ao mesmo tempo em que prestigia os neo-missionários
sem cruz... Que São Tomé, por meio de Maria, Medianeira de todas as graças, esmague
uma vez mais as argúcias satânicas nestas plagas que ele tanto quis converter
para Nosso Senhor Jesus Cristo.
São Tomé na Sagrada Escritura e na Tradição
Encontramos várias referências de São Tomé nos
Evangelhos. São João narra episódios que revelam o caráter ao mesmo tempo
corajoso, afeito ao raciocínio e tendente ao ceticismo de São Tomé. Tornou-se
famosa sua atitude incrédula diante da afirmação dos outros Apóstolos, que
haviam visto Jesus após a Ressurreição: “Se não vir em suas mãos (do
Redentor) a abertura dos cravos e não meter a minha mão no seu lado, não
creio”, asseverou, na ocasião (Jo, 20, 25).
Acrescenta o Evangelista que, oito
dias depois, estavam os discípulos reunidos, e São Tomé com eles. Jesus
apareceu-lhes e disse então a São Tomé: “Mete aqui o teu dedo e vê as minhas
mãos, aproxima também a tua mão, e mete-a no meu lado; e não sejas incrédulo,
mas fiel!”. Respondeu Tomé, e disse-lhe: “Meu Senhor e meu Deus”. Disse-lhe
Jesus: “Tu creste, Tomé, porque me viste; bem-aventurados os que não viram e
creram” (Jo. 20, 27-29).
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Tradição muito arraigada atesta ter
São Tomé exercido seu apostolado em regiões do Oriente situadas entre a
Síria, a Pérsia e a Índia. Outra tradição referente ao Apóstolo, pouco
conhecida e até certo ponto silenciada, mas com sólidas raízes nos relatos
dos povos indígenas das Américas: sua ação evangelizadora no continente
americano.
Pesquisas históricas realizadas na
Índia nos últimos 70 anos têm confirmado a crença multissecular a respeito do
Apóstolo. Sua figura faz parte da história indiana, a qual admite ter sido o
Cristianismo implantado por São Tomé em Malabar, ao sul do país, e na costa
de Coromandel. Muitos se converteram mediante sua pregação, tendo ele
construído muitas igrejas.
Segundo essa tradição, São Tomé
chegou à Índia em meados do século I, tendo evangelizado a região de
Cranganur. No ano 72, quando o Apóstolo rezava diante da cruz de granito
esculpida por ele próprio, no monte de São Tomé, morreu trespassado por uma
lança. Seu corpo foi sepultado em Meleapur-Santhome, na igreja por ele
construída. De fato, conservam-se nessa cidade diversos monumentos que
atestam a atuação apostólica de São Tomé, como a caverna na qual se escondia
de seus perseguidores, o oratório esculpido por ele, diante do qual foi
martirizado, e seu túmulo.
Uma bela catedral neogótica foi
construída no ano de 1893 em honra ao glorioso Apóstolo, em Meleapur, no
mesmo local onde havia uma igreja a ele dedicada desde o início do século
XVI. As relíquias do Santo foram levadas a Edessa, na Palestina, e mais tarde
para Ortona, na Itália. Na comemoração do XIX Centenário de São Tomé, na
cidade de Madras, em 1972, o Legado papal, Cardeal Convey, declarou São Tomé
Patrono e Apóstolo da Índia.
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Continua no próximo post: Capítulo
II - Primeira
página da História do Brasil
