Autor: Carlos Sodre Lanna
Capítulo
II
Primeira
página da História do Brasil
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| Batalha de Ourique |
Corria o ano de 1139 quando Nosso Senhor Jesus Cristo
apareceu a D. Afonso Henriques. Pouco depois se consumaria o Reino de Portugal,
que exerceria uma grande missão em “terras muito remotas”. Existe uma opinião
difusa entre os luso-brasileiros de que essa passagem se refere particularmente
ao Brasil, que terá um papel muito importante a desempenhar no concerto das
nações, coroando uma esperança que se mantém desde o Descobrimento.
Procuraremos aprofundar as razões dessa conjectura,
fundamentando-a com vistas a fazer dela uma certeza a respeito de nosso futuro.
Nascimento
de Portugal
Na Batalha de Ourique, no dia 25 de julho de 1139, os
portugueses enfrentaram os infiéis maometanos em grande inferioridade numérica:
cem mouros para cada lusitano, segundo muitos cronistas idôneos.
Belicosos, exercitados na guerra e confiantes pelas
vitórias já alcançadas, com as quais sujeitaram ao seu império grande parte do
mundo daquele tempo, os inimigos constituíam a flor dos maometanos espanhóis e
africanos. Mas valeu aos portugueses seu grande esforço, a ventura de seu
comandante e, sobretudo, o particular e extraordinário auxílio dos Céus.
Pois que Nosso Senhor Jesus Cristo veio em seu auxílio,
prometendo a vitória a D. Afonso Henriques e recomendando-lhe aceitar ser
aclamado rei. Surgiria assim o reino luso, batizado por seu primeiro monarca
como Terra de Santa Maria.
Aparição
de Nosso Senhor Jesus Cristo
D. Afonso Henriques relata como se deu a aparição de
Nosso Senhor, na noite anterior à Batalha de Ourique: “Eu estava com meu
exército nas terras de Alentejo, no Campo de Ourique, para dar batalha a Ismael
e a outros reis mouros que tinham consigo infinitos milhares de homens.
“Armado com espada e rodela, saí fora dos reais, e
subitamente vi à parte direita contra o nascente um raio resplandecente e
indo-se pouco a pouco clarificando, cada hora se fazia maior, e pondo de
propósito os olhos para aquela parte vi de repente no próprio raio o sinal da
Cruz, mais resplandecente que o sol, e Jesus Cristo crucificado nela.
“Vendo pois esta visão, pondo à parte o escudo e
espada, lancei-me de bruços, e desfeito em lágrimas comecei a rogar pela
consolação de meus vassalos, e disse sem nenhum temor: a que fim me apareceis,
Senhor? Quereis, por ventura, acrescentar fé em quem tem tanta? Melhor é por
certo que Vos vejam os inimigos e creiam em Vós, que eu, que desde a fonte do
batismo Vos conheci por Deus verdadeiro, Filho da Virgem e do Padre Eterno, e
assim Vos conheço agora”.
“Confia,
Afonso”
“O Senhor, com um tom de voz suave que minhas orelhas
indignas ouviram, me disse: ‘Não te apareci deste modo para fortalecer teu
coração neste conflito, e fundar os princípios de teu reino sobre pedra firme.
Confia, Afonso, porque não só vencerás esta batalha, mas todas as outras em que
pelejares contra os inimigos de minha Cruz.
“‘Acharás tua gente alegre e esforçada para a peleja,
e te pedirá que entres na batalha com título de rei. Não ponhas dúvida, mas
tudo quanto te pedirem lhe concede facilmente. Eu sou o fundador e destruidor dos reinos e impérios, e quero em ti e
teus descendentes fundar para mim um império, por cujo meio seja meu nome
publicado entre as nações mais estranhas. E comporás o escudo de tuas armas
do preço com que Eu remi o gênero humano, e daquele por que fui comprado dos
judeus, e ser-me-á reino santificado, puro na Fé e amado por minha piedade’.
“Eu tanto que ouvi estas coisas, prostrado em terra, O
adorei, dizendo: Por que méritos, Senhor, me mostrais tão grande misericórdia?
Ponde, pois vossos benignos olhos nos sucessores que me prometeis, e guardai
salva a gente portuguesa. E se acontecer que tenhais contra ela algum castigo
aparelhado, executai-o antes em mim e meus descendentes, e livrai este povo que
amo como a único filho.
“Consentindo nisto, o Senhor disse: ‘Não se apartará deles nem de ti nunca minha
misericórdia, porque por sua via tenho aparelhadas grandes searas e a eles
escolhidos por meus segadores em terras muito remotas’. Ditas estas
palavras desapareceu, e eu cheio de confiança e suavidade me tornei para o
real”.
Missão
providencial
Dia venturoso aquele em que a Cruz projetada no
firmamento fez nascer um povo abençoado, forte e piedoso, por cujo meio Nosso
Senhor veria seu “nome publicado entre as nações mais estranhas”, sempre que os
portugueses plantassem essa mesma cruz em terras remotas. Por isso, pôde um dia
Vieira proclamar: “Deus deu a Portugal
um berço para nascer e o mundo inteiro para morrer”.
Seguindo a mesma trilha de heroísmo, em 1385 o rei D.
João I expulsava os mouros das terras portuguesas e subia ao trono. Desde então
suas vistas se voltaram para mais longe e os portugueses deram início à epopéia
que os levaria a “dilatar a Fé e o Império” por todo o orbe. Durante mais de um
século e meio, os atos de abnegação e dedicação pela Fé foram se multiplicando.
Em todos esses feitos estava sempre presente Nossa
Senhora, a quem D. Afonso Henriques consagrara seu povo nascido sob o signo da
Cruz. Era a Santa Maria a acompanhar Vasco da Gama à Índia, ou a representar-se
na linda imagem de Nossa Senhora da Esperança que viajava na armada de Cabral
ao Brasil.
Decadência
moral e Fátima
Deus combatia ao seu lado. Entre os portugueses não
havia quem não sentisse uma força sobrenatural nessa convicção, pois eles se
consideravam soldados da Cruz. E sob este signo venciam, apesar de todas as
incoerências e abusos que sempre podem manchar qualquer empresa humana.
E após longo itinerário de pensamentos e evocações
históricas, chegamos aos tempos atuais, de decadência moral e espiritual. Somos
obrigados a constatar que há todo um trabalho de restauração a ser empreendido,
mas desejado pela Providência.
Não parece existir outro sentido, por exemplo, o fato
de a Mãe de Deus ter querido falar em Fátima ao mundo inteiro. Sua mensagem, na
verdade, se dirige a todos os homens, mas de modo imediato ao povo português e
aos que lhe são mais próximos pelo sangue e pela história.
Os
Lusíadas cantam
A vitória dos portugueses contra os mouros em Ourique
e o aparecimento de Nosso Senhor Jesus Cristo a D. Afonso Henriques de tal
maneira marcaram a alma e os destinos de Portugal na época, que o célebre poeta
Luís Vaz de Camões narra esses acontecimentos em seu imortal ‘Os Lusíadas’:
Mas
já o príncipe Afonso aparelhava!
O lusitano exército ditoso
Contra o Mouro, que as terras habitava!
De além do claro Tejo deleitoso
Já no campo de Ourique se assentava!
O arraial soberbo e belicoso
Defronte do inimigo Sarraceno
Posto que em força e gente tam pequeno
Em nenhuma outra coisa confiado
Senão no sumo Deus, que o céu regia
Que tão pouca era o povo batizado
Que pera um só cem Mouros haveria!
Julga qualquer juízo sossegado
Por mais temeridade que ousadia!
Cometer um tamanho ajuntamento
Que pera um cavaleiro houvesse cento
Cinco reis mouros eram os inimigos
Dos quais o principal Ismar se chama!
Todos experimentados nos perigos
Da guerra, onde se alcança a ilustre
fama!
A matutina luz serena e fria!
As estrelas do pólo já apartava!
Quando na cruz o filho de Maria!
Amostrando-se a Afonso o animava!
Ele adorando quem lhe aparecia!
Na Fé todo inflamado, assim gritava:
‘Aos infiéis, Senhor, aos infiéis!
E não a mim, que creio o que podeis’!
Com tal milagre os ânimos da gente
Portuguesa inflamados levantaram
Por seu rei natural este excelente
Príncipe, que do peito tanto amavam.
E diante do exército potente
Dos inimigos, gritando o céu tocavam!
Dizendo em alta voz: ‘Real, real!
Por Afonso, alto rei
de Portugal.


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